Monday, May 15, 2006


Tristessa: uma experiência de Hiperficção em português


Rita Isabel Marrafa Morganheira de Carvalho Aluna n.º 4284
Seminário Hiperficção
Leccionada por Prof. Dr. José Augusto Mourão
Departamento de Ciências da Comunicação

Mestrado de Cultura Contemporânea e Novas Tecnologias
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa




Hiperficção: de onde vem e o que é?

«[hipertexto é] um conjunto de nós ligados por conexões. Os nós podem ser palavras, páginas, imagens, gráficos ou parte de gráficos, seqüências sonoras, documentos complexos que podem eles mesmo ser hipertextos. Os itens de informação não são ligados linearmente, como em uma corda com nós, mas cada um deles, ou a maioria, estende suas conexões em estrela, de modo reticular.»
Pierre Lévy[1]


«O ciberespaço "existe" no interior de um espaço virtual acentuadamente gráfico e configurável pelo sujeito. O sujeito pode, assim, organizar e ordenar o cosmos à medida do seu gosto pessoal. O nosso planeta não é já a terra mas o Windows (ou o Linux, ou ...). Os ambientes gráficos enquadram o ciberespaço numa ilusão de mundo configurável pelo indivíduo.»
José Augusto Mourão[2]


a) O Computador, berço do Hipertexto Moderno
Sem hipertexto não há hiperficção. É uma premissa iniciática com que devemos iniciar a explicação sobre a origem da Hiperficção: o texto hipertextual… uma ficção interactiva que resulta de uma nova espécie de literatura, produzida e disponível virtual e digitalmente.
A expressão [hipertexto] entrou no vocabulário pela mão de Theodor Holm Nelson em 1965. E apesar de experiências milenares que apontam para uma pré-história do hipertexto, onde obras e textos faziam uso de referências internas para outras obras e textos, a palavra ganha um verdadeiro contorno nos anos 50, com a existência do computador como ferramenta de escrita. É nessa altura que surgem textos cibernéticos «gerados por processos combinatórios desenvolvidos com recurso a computadores, ou por analogia com tais processos».[3]
Vannevar Bush publicou, em 1945, o artigo As we may thing no qual esbola o Memex, um primeiro esboço daquilo que é hoje o nosso computador pessoal. Este matemático, responsável por uma agência de Desenvolvimento e Pesquisa Científica do governo norte americano, coordenava uma equipa de mais de seis mil cientistas e deparou-se com a necessidade de armazenar e organizar com método o volume de dados e informação. Uma forma de armazenamento que permitisse aceder às informações de forma rápida e eficiente. Para o autor, esta seria a forma de alterar profundamente o conhecimento humano e aponta, para isso, a urgência da miniaturização, algo que já estava a decorrer na época. Este ensaio foi o suficiente para produzir uma fileira de seguidores que acabaram por moldar o hipertexto como hoje o conhecemos.
Em 1965 surge a palavra Internet e, com ela, um conceito radical e inovador. Nada mais seria como antes. É profundamente alterado o cenário conceptual do hipertexto. «A revolução do nosso presente é, incontestavelmente, maior do que a de Guttenberg. Não altera apenas a técnica de reprodução do texto, mas altera também as estruturas e as próprias formas de suporte que o comunica aos leitores.»[4]
Mas já antes, em 1960, Theodor Nelson, cientista informático, havia desenvolvido o Projecto Xanadu, um processador de texto com a capacidade de gerar múltiplas versões e de as mostrar numa escrita não sequencial. Evocando o poema de Samuel Taylor Coleridge, Kublai Khan, o autor que perdeu parte do seu poema original por ter adormecido sob o efeito de um medicamento, o programa permitia que o leitor conseguisse construir o seu caminho num documento electrónico. O objectivo era simples «(…) facilitar uma nova forma de literatura: um novo media popular, um sistema de edição "de muitos para muitos"»[5]
Cinco anos depois, foi também Ted Nelson que trouxe à luz a palavra Hipertexto em plena Conferência da Association for Computing Machinery, numa comunicação designada A file structure for the complex, the changing and the indeterminate, que o cientista definiu como «(…) escrita não-sequencial e rede interligada de nós que os leitores podem percorrer de forma não-linear».[6] Esta forma de composição de texto electrónico é, ao mesmo tempo, uma forma de "edição". Hipertexto não é mais do que a escrita não sequencial, não linear, sem início e sem fim, por vezes comparada às estruturas associativas do pensamento. O «Livro dentro do livro escondido debaixo do texto (…) A escrita hipertextual permite antes um regresso a uma imensa tradição que tende a exprimir o não-linear, o encavalitado da vida, a profusão do real, a magia do invisível, para lá da rigidez do suporte impresso.» [7]
Os hipertextos compõem-se de lexias, ou seja, blocos de informações, pequenos textos, e de vínculos electrónicos que são os links. Roland Barthes, criador do termo lexia, explicita-o quando diz que «(…) tanto pode englobar poucas palavras como várias frases (...) bastará que seja o melhor espaço possível onde podemos observar os sentidos"» [8]
Retomado por Landow, ficou definido que um lexia é o ponto onde se está antes de um link ou um nó. Esse lexia pode ser constituído por imagens, textos, gráficos, fotografias, músicas, ícones… um número infindável de informação extra que acaba por compor unidades básicas de dados, unidades semânticas com um peso cognitivo.
De facto, a novidade do hipertexto não está tanto na estrutura mas na tecnologia. Afinal, referências bibliográficas são uma forma de hipertexto: remetem para outras obras. A novidade é o transporte imediato que um clique no botão do rato executa.
«Hipertexto é um médium de informação que existe apenas on-line num computador. É uma estrutura composta de blocos de texto conectados por links eletrônicos que oferecem diferentes caminhos para os usuários. O hipertexto providencia um meio de arranjar a informação numa maneira não-linear tendo o computador como o automatizador das ligações de uma peça de informação com outra.»[9]
O hipertexto, com um alto teor de complexidade icónica e visual, é o resultado directo da evolução tecnológica de formas de registo, armazenamento e circulação da informação. Uma evolução que permite falarmos hoje de um hipertexto como um texto conectado a todos os textos que existem em tempo real. Tudo isto altera, drasticamente, o nosso conceito sobre o que é escrever, ler e conhecer.
Subitamente, somos levados para uma outra dimensão textual, para um outro texto, para um acréscimo de informação. É esta quase infindável fonte de informação arborescente que o hipertexto permite.
«(…) é possível mesclar em nós de um hipertexto (também conhecidos por "páginas" Web) textos, imagens individuais, seqüências de imagens (vídeo clips) e fragmentos sonoros. Um elemento desta natureza, ou parte dele, pode servir de âncora ("base" ou "origem" de um nexo (link) que, quando selecionada, dispara a busca do documento referenciado) de outro. A seleção de uma âncora por parte do usuário final provoca a busca do elemento referenciado pelo nexo que tem sua origem em tal âncora. Este mecanismo permite criar diversas formas de navegação pelo material contido em um hipertexto (texto para texto, texto para imagem, imagem para texto...)»[11]
Trata-se de uma tecnologia electrónica de armazenamento e ligação de dados. Cruza informação e responde às necessidades de busca automática. Maria Augusta Babo explica que, no entanto, «a finalidade primeira do dispositivo hipertextual é de natureza enciclopédica e não poético-literária.»[10] Mas o que permite é um desafio que os escritores, os produtores de obra literária, abraçaram. O potencial rebelde que oferece o hipertexto foi transformado em utensílio experimental da criação narrativa e o resultado foi um novo e surpreendente conceito.


b) A Internet e os primeiros passos da Hiperficção
A World Wide Web, essa auto-estrada da comunicação, permite a existência de paragens na viagem internáutíca mas não é o único suporte… disquetes e cd-roms são a nova lombada, o novo papel, a original capa de um livro que se compõe de histórias com bifurcações, de entroncamentos e escolhas na sequência narrativa que só dependem do leitor.
A tecnologia digital permite a criação de um movimento literário em que a poesia se reveste de minimalismo numa base anti-discursiva.: LEA I – variações semânticas, do brasileiro Haroldo de Campos e Message Clear, do escocês Edwin Morgan, são disso exemplo. Sendo o computador um descodificador dos códigos informáticos, só aí é possível criar hipertexto. Um hipertexto que subordina o homem, segundo Andreia Cordeiro, pelo facto de «não haver um sentimento de posse sobre o texto é uma justificação, para muitas pessoas, para a não aceitação do hipertexto.»[12] No entanto, autores como Anthony Smith, de Goodbye Gutenberg, defendem o oposto: uma deslocação do autor para o leitor que passa a ser soberano perante o texto.
O grupo OULIPO, Ouvroir de Littérature Potentiel, criado em 1960 por um conjunto de autores, entre os quais Jacques Roubad, Georges Pérec, Italo Calvino e Harry Matthews foi decisivo quando começaram a aplicar à narrativa
«(…) princípios combinatórios inspirados no cálculo de probabilidades e em formalizações computacionais. As histórias ramificadas com enredos e percursos de leitura alternativos e concorrentes, levada a cabo pelos membros do OULIPO, é um dos géneros que antecipa o hipertexto. (...) Pode por isso afirmar-se que a poesia e a ficção cibernética existiram ainda antes das máquinas e dos programas que permitiriam explorar computacionalmente as possibilidades permutativas e apresentá-las em formatos digitais.»[13]
Quando o hipertexto apresenta nós que contêm elementos de cariz literário falamos de hiperarte ou hiperficção, um modo de trabalhar a narrativa num cenário de hipermedia. Este conceito permite o envolvimento do leitor num espaço de múltiplas autorias e de pouca clareza entre quem lê o que se escreve e quem escreve o que se lê. O leitor entra num ambiente no qual a navegação só depende dos objectivos que por ele são traçados e da sua habilidade em desvendar palavras-chave adequadas que lhe permitam aceder aos textos que procura.
A Hiperficção compõe-se de um texto ou vários que permitem diferentes opções de leitura através de links que reenviam o leitor para outros textos, outras opções de encaminhamento da história, assumindo o leitor o papel decisório da continuidade da obra. «Navegar em um hipertexto significa portanto desenhar um percurso em uma rede que pode ser tão complicada quanto possível. Porque cada nó pode, por sua vez, conter uma rede inteira.»[14] É uma espécie de jogo onde o labirinto representa a metáfora imagética. Um labirinto a ser decifrado e que é, em muitos sites de hiperficção, o símbolo ilustrativo, sendo, muitas vezes, parte incluída na estrutura de navegação.
O conceito surge na conjugação de duas ideias: hipertexto e ficção. Um agregado de textos, ligados entre si através de links que podem ser activados pelo utilizador que é, assim, transportado para os documentos desse agregado. O Hipertexto é uma nova forma de leitura e a Hiperficção um novo meio de configuração da escrita e da leitura da literatura. «Com o hipertexto - uma paisagem (multimedia) em movimento onde cada um, à partida, solitariamente navega, electronicamente seduzido pelo princípio do prazer, até chegar a uma “read-write form”, uma construção significante, interlocutiva - chegou a era da desestabilização generalizada.»[15]
Afternoon, a story foi, em 1992, a obra pioneira. O norte-americano Michael Joyce escreveu, pela primeira vez, hiperficção em disquetes de computador. E tudo tem início numa tarde, como muitas outras, em que Joyce, no caminho para o trabalho, se depara com um acidente de automóvel. Entre os ocupantes reconhece a sua mulher e o seu filho. O enredo fica entre uma espécie de sonho e realidade. Nesse limbo narrativo, permanece a dúvida sobre a existência real dos intervenientes, se seria, de facto, a sua mulher e filho os acidentados. Esta ficção está, hoje, disponível em cd-rom e é distribuída pela empresa Eastgate Systems.
A regra é a inexistência de regras: pode iniciar-se e terminar o texto em qualquer ponto do hipertexto, escolher um fim, um meio, saltar o início em ramificações virtuais. Está nas mãos do leitor que pode colocar um the end onde bem entender.
«O hipertexto afigura-se, pois, como um texto modular, lido de maneira não-seqüencial, composto por fragmentos de informação, que compreendem links vinculados a nós. O percurso não-linear faculta novos gabaritos de intervenção por parte dos leitores. Conforme seus interesses e preocupações, a pessoa segue caminhos próprios e extrai sentidos dos dados localizados.» [16]

Mas tudo tem o seu revés. A sobrecarga cognitiva pode levar a uma desorientação e descontextualização devido à grande quantidade de inferências que o leitor pode fazer em busca do relacionamento entre as partes do todo desorganizado, segundo os padrões conhecidos. Confrontado com um ambiente desestruturado em que as decisões têm de ser tomadas perante pistas de hipertexto, a tarefa pode ser complicada. Nem todos os hipertextos oferecem a congruência necessária para que o rumo da leitura não se perca.

Existem diversos tipos de hiperficção: numa interactiva, a actividade participante do leitor pode também passar pela escolha do destino dos personagens, as suas decisões, falas, actos, ou navegar por outros locais virtuais, por sites hiperlinkados ao longo do texto e definidos pelo autor da hiperficção que remetem para outras moradas virtuais; nas colaborativas existe um texto inicial, primário, cuja sequência é escrita pelos leitores que enviam através de email ou que deixam, numa espécie de fórum ou message board, o seu contributo quanto ao desenrolar da história.
«Um autor escreve um parágrafo e dispõe o texto para que seus “visitantes” completem da forma que desejarem. Normalmente os textos inseridos passam pelo crivo do autor-organizador, apenas para tirar os “vandalismos” que certamente acontecem. O produto final é um texto-colagem de autores e realidades diferentes que se cruzam na virtualidade.
Esse tipo de obra causa uma espécie de diluição do papel de autor e leitor, à medida em que o indivíduo que era autor em um momento é também o leitor de sua própria obra.»
[17]
A definição de Marcus Palácios, professor da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia, é outra. Também ele autor de uma obra de hiperficção, determina que existem duas classificações para vivências em hipertextos literários: a hiperficção Construtiva e a Exploratória. «A hiperficção construtiva designa obras coletivas, caracterizadas pela multivocalidade e pelo anonimato dos autores, enquanto a hiperficção exploratória designa obras produzidas por um só autor ou autores identificados»[18]
A Hiperficção permite que a primeira versão de um texto se perca, que não deixe rasto. Acessível à mudança e à alteração, modificada por comentários, sugestões e intervenções, verdadeiras obras colectivas nascem. Partilham uma obra leitores/escritores que nunca se conheceram, que nunca partilharam espaço ou diálogo, que nunca se ouviram. Leitor e autor são ambos elementos activos que interagem à distância. Os seus papéis misturam-se. O leitor torna-se autor, acabando, por vezes, por criar «de forma cooperativa, um novo texto. Os conceitos de autoria, autoridade e autonomia são revistos e um novo mundo de criação, comunicação e recriação é estabelecido, dando margem a um novo tipo de aplicação do hipertexto: a hiperarte e a hiperficção; um novo espaço: a hiperweb; uma nova cultura: a cibercultura; com novos valores, relações, interações e papéis.»[19]
O leitor que navega não é apenas um consumidor passivo da mensagem. Ele produz activamente o texto que acede e esse é o motivo que leva à deslocação conceptual de leitor e autor.
«A página se converte na tela, a tela substitui a página. Poderíamos chamar a este movimento de substituição de ‘história’. Os textos eletrônicos se apresentam a si mesmos em meio de sua dissolução: se lêem onde se escrevem, e se escrevem enquanto se lêem»[20] A hiperficção insere-se num espaço-tempo nada sereno. Esse habitat é designado de hipertropias, nichos que são compostos por obras de hiperficção. O leitor envolve-se com o texto, determinando o desenrolar da história, alterando finais e personagens, mudando cenários num contexto de grande flexibilidade. Em alguns sites de hiperficção, é possível ao leitor ou visitante da página acrescentar links, colocar imagens ou outros textos, traçar nós e ligações hipertextuais. A navegação depende, tão-somente, dos seus objectivos.


c) Leitor-Autor ou Autor-Leitor?
A leitura é, agora, também escritura. Ler e escrever misturam-se. É o leitor que escolhe que direcção tomar naquilo que lê virtualmente. Mas não só… é ele quem define o conteúdo do que lê pela exploração de espaços virtuais através daquilo que lhe interessa ou lhe apeteça. Simultaneamente, constrói um conjunto de conhecimentos com base nas escolhas que vai fazendo.
Isto, obrigatoriamente, tem fortes influências no acto social que se opera entre leitor e autor. «(…) uma tecnologia intelectual, quase sempre, exterioriza, objectiva, virtualiza uma função cognitiva, uma actividade mental e um texto reorganiza a economia ou ecologia intelectual em seu conjunto e modifica em troca a função cognitiva que ele supostamente deveria auxiliar ou reforçar»[21]
Surge uma nova relação entre leitor e autor e entre leitor e obra. Quem lê transforma-se em co-autor e a obra não pré-existe à leitura mas é, antes, um objecto de construção do leitor que lhe atribui uma interpretação pessoal. Com a leitura realiza-se uma reconstrução do significado que tem por base o uso de conhecimentos que são partilhados pelo autor e pelo leitor. Activar o conhecimento prévio é permitir que o leitor faça as inferências imprescindíveis para relacionar as diversas partes do hipertexto como um todo com coerência. «A leitura, então, é vista como uma atividade caracterizada pelo engajamento e uso do conhecimento, em vez de uma mera recepção passiva.»[22] A orientação do leitor deixa de ser o sentido do texto e passa a ser o caminho e a elaboração do seu pensamento e a imagem que ele tem do mundo. Passam a existir vários processos de leitura tão activos quanto forem os objectivos do leitor, em vez de existir apenas um processo de compreensão do texto.
«Na reconstrução de relações lógicas o processamento do texto pelo leitor é essencialmente de caráter cognitivo, mas quanto maior for a rede de ligações feita pelo leitor através do hipertexto, mais se fará necessário o controle ativo desse processo mediante as estratégias metacognitivas de manutenção de objetivos e monitorização e desautomatização do processo de compreensão. Desta forma, o hipertexto em seu sentido mais amplo, potencializa o desenvolvimento de habilidades cognitivas e, principalmente, desencadeia o desenvolvimento das habilidades metacognitivas de compreensão na leitura.»[23]

É de Roland Barthes a ideia de morte do autor. Em 1968, designava a expressão como uma noção de que a obra já não está na posse do autor, que perde o poder da criação. O leitor é o novo recriador, reescreve a obra e «une todos os traços que constituem a escrita»[24]. A interactividade virtual acentuou esta tendência. O leitor pode agir sobre a obra, escolher dentro, claro está, de um campo de possibilidades que lhe são dispostas pelo autor. O resultado é uma plurissignificação pois cada leitor toma o caminho que quiser.
Encaixa aqui a noção de obra aberta de Umberto Eco. A ruptura que ocorre nos anos 60, em termos literários, produz um novo tipo de textualidade. «São eles, a descontinuidade, a indeterminação, a pluralidade, o acaso como desconstrutor da própria coerência da intriga e ainda o papel de produtor de significação dado ao leitor.»[25]
O campo de possibilidades que se abre proporciona a existência de um campo de leitura a ser explorado pelo autor que selecciona os textos a que o leitor terá acesso. Mas este leitor interveniente decide que textos quer ler, porque ordem e com que interpretação.
«O "texto virtual" é assim uma estrutura literária associada a um motor informático que a põe a funcionar. E o autor institui-se, por conseguinte, em "meta-autor". O circuito da comunicação tradicional surge então aqui radicalmente alterado nos seus múltiplos componentes: na relação autor/texto, na relação texto/leitor, na relação autor/leitor, e na própria noção de Texto. Entramos no domínio do Texto concebido como pura "máquina verbal": ou do texto como estrutura geradora de sentidos.»[26]




Tristessa: a estreia em português


«Todo processo de transformação social tem um epicentro, que é o momento em que a revolução efetivamente acontece.
Os personagens desta história vivem no epicentro da transição entre a era industrial e a era digital, em uma sociedade em permanente processo de descontinuação.
Eles vivem um momento em que a pobreza, a Aids, as guerras religiosas e o desemprego contrastam cada vez mais com o desenvolvimento da tecnologia da informação e com o crescimento do indivíduo no ciberespaço.
E dentro desse processo todo eles vivem o presente, olham para o passado, sonham e deliram, dando prioridade ao eu. Passam a maior parte do tempo olhando para dentro de si mesmos, às vezes sem perceber a revolução da qual estão fazendo parte.
Bem-vindos a este grande teatro da informação.
A entrada é franca para todos que estiverem presos nesta imensa teia de bits.
Esta novela não é apenas para raros e loucos, se bem que um pouco de cada um desses atributos pode ajudar bastante na loucura da viagem.
Não haverá instruções de navegação. No auge do desespero, use o back, o go , ou apele para o navegador.
Fasten your seat belts e boa viagem.
Eu lhes desejo um selvagem vôo por dentro de vocês mesmos em direção ao futuro.
The Passenger»
Praefatio, in http://www.quattro.com.br/Tristessa/prefacio.htm


Em 1996, a World Wide Web conhecia a primeira hiperficção na língua de Camões. Tristessa ficou online há 10 anos e, desde então, é uma ficção aos pedaços, um texto sem fim. É este projecto de Hiperficção enquanto hipernarrativa ficcional que nos interessa estudar.
Esta trata-se, não de uma edição electrónica de um livro publicado em papel, ao contrário do que, apesar de tudo, é indiciado, mas de um texto electrónico pensado e concebido para se mover e instalar num suporte virtual com características específicas do universo da web.

a) Quem Escreve em Tristessa
Em 1998, a empresa brasileira Grupo Quattro, especialista em design, produção visual e programação, alojou no seu site Tristessa. Thomas G. Marasco é o autor, fundador e criador desta Hiperficção. Dedica-se ao Jornalismo, à Comunicação e Ciências Sociais. Curioso por natureza, diz que «Sempre houve em mim o fascínio pela grande catarse, pelo grande orgasmo coletivo em torno de uma história que eu sempre acreditei existir. E nessa história sempre fui o personagem principal, nunca o coadjuvante.
Como todo intelectual decadente e apaixonado, passei a maior parte de minha vida tentando parir a grande obra, o grande filme, mas o máximo que consegui foi escrever um livro chamado Solidão dos Sobreviventes.
Passei a vida empurrando portas já abertas, escancaradas, porque na verdade sempre me faltou talento para arrombar qualquer porta que ainda estivesse fechada.»
[27]
Conheceu um Publisher que lhe sugeriu passar um dos livros que escreveu do formato analógico para o digital. Forneceu-lhe o CD-rom e deu autorização para que o mesmo reinventa-se a vida e percurso dos personagens iniciais.
Num site estruturado como se de um documento típico do ambiente da Web se tratasse, numa modernidade que confere ao leitor a perfeita consciência de que se trata de cibertexto, surge um índice de navegação que passa despercebido a muitos leitores. E é esse o intuito: deixar quem lê compor a sua história, o seu caminho.
The Passenger é quem assina o texto do Prefácio. É também ele o criador da revista online Passage e do que, a certa altura, se designa de «ficção interactiva chamado Tristessa, que gira ao redor da vida, experimentação e amores de alguns amigos com o qual ele convive em seus delírios.».[28] A revista online parece pertencer ao projecto global da hiperficção. Todas as personagens de Tristessa escrevem para a revista… disponibilizam emails e homepages. Depreende-se, nesta massa de informação contraditória, que The Passenger e Thimas Marasco serão a mesma pessoa e que o projecto terá sido, sempre, o de publicar digitalmente a obra.
Supõe-se, em parte e pela apresentação que Thomas Marasco faz de si, que esta narrativa tem muito de autobiográfica, passeando por um limbo entre ficção e real mas tendo por base factos reais. Talvez por isso, o autor é apresentado em diversos excertos da obra como o narrador na primeira pessoa.
«Hoje tenho certeza que Thomas G. Marasco deveria ter adivinhado Fernanda desde o começo daquele verão, desde o momento em que ela desceu desfilando por aquela escadarias de mármore, com as sombras dos pilares varando o seu corpo refletido nas nuvens projetadas por todas as paredes do imenso salão» Noutras alturas, é o próprio Thomas que veste o papel de narrador. «"Expozicione Fotografica di Thomas G. Marasco". Ao lado do meu nome uma máscara, um símbolo forte em Veneza, para mim mais forte do que toda a arte de seus castelos.»

O pretenso autor chega mesmo a assinar e colocar datas em textos epistolares apresentados nas lexias, como acontece com Paula.
«Um grande abraço, Paula, de anjos e de doidos, e até o nosso encontro em Paris.
Thomas, abril de 1982.»

Aliás, um único e mesmo texto pode conter diferentes narradores. «Como todo intelectual decadente e apaixonado, passei a maior parte de minha vida tentando parir a grande obra, o grande filme, mas o máximo que consegui foi escrever um livro chamado Solidão dos Sobreviventes. (…)
Como todo intelectual decadente e apaixonado, Thomas passou a maior parte de sua vida tentando parir a grande obra, o grande filme, a grande peça de teatro, mas o máximo que conseguiu foi escrever o livro Solidão dos Sobreviventes, ainda no formato impresso.»

A esta variação de narradores junta-se uma variação de géneros textuais, como a existência de cartas e emails. Na lexia "Resposta" temos
«Date: Wed, 19 Dec 1995 16:28:05 GMT
From: thomas@quattro.com.br
To: roberta@quattro.com.br
Subject: Já pensei.
Já pensei, Roberta, mas não estou de acordo, como pode perceber. Você é uma mulher maravilhosa, por isso não pode ficar de fora desta paranóia toda, principalmente agora.
Não me queira mal. Mais para a frente você vai entender, principalmente no final do livro. Eu preciso da sua presença agora como precisei no começo, como vou precisar no fim, na grande cena da praia.
Ninguém pode ficar de fora, o cenário já está todo preparado, agora não posso mais voltar atrás.
Marcela foi quem deflagrou esta história, Joana a vítima, Fernanda a ponte prateada, mas foi você quem me ajudou a lhe dar forma, foi você quem me inspirou a estrutura, apesar de eu achar que estou sempre alguns níveis abaixo do que você me propõe.»


b) O corpo de Tristessa
Em Tristessa, existem cerca de 70 lexias e, caso se combinassem todas as lexias, obtendo-se sempre uma sequência de 70, seriam possíveis algo como 1070 possibilidades de leitura. Uma complexidade formal que pode acarretar alguns problemas. Esta polifonia e mistura de géneros textuais acaba por reforçar a fragmentação que o hipertexto demarca.
Tristessa surgiu, inicialmente, em CD-ROM e em formato virtual, na Internet, divide os lexias em 5 secções, planos aleatórios, intituladas de: "Vida", "Vultos", "Ensaio", "Matéria" e "Insight".



Dentro desses planos o leitor interage com a história e personagens pela sequência que escolher. As diferentes direcções tomadas pelo leitor conduzem a diferentes interpretações de um mesmo fim.
De um modo livre, é possível navegar pelas lexias através de um menu que é apresentado nas páginas iniciais de Tristessa. No corpo do texto, as lexias apresentam, igualmente, links, na maioria internos, mas que noutros casos reenviam o leitor a outras páginas e endereços electrónicos referentes ao tema ou palavra definidos pelo autor, o que acontece quando o autor refere que o livro de Thomas teria ficado perdido no buraco negro da cultura impressa. Hiperlinkando a expressão buraco negro somos reenviados para uma página da Northwestern University, nos Estados Unidos, que explica o conceito na página do curso de astrofísica.
Este modelo textual, à imagem de outros, traz uma certa sensação de desorientação, de quem se perde no hipertexto. A estrutura espacial de Tristessa é simples. Não tem tantas solicitações e nem é excessivamente confusa que absorva o leitor.
No final de cada página, Thomas Marasco permite uma leitura sequencial ao disponibilizar acesso à página anterior ou posterior. A organização é, obviamente determinada pelo autor, mas mesmo que a direcção de leitura que o leitor tome seja aleatória, não deixa de haver uma opção. É no pé das páginas que compõem o hipertexto Tristessa que surge um menu em forma de imagem que possibilita a exploração da ficção sob uma ordem prevista pelo autor.

Esse mesmo menu dá também acesso à página-índice na qual estão enumeradas todas as lexias que constituem links para as respectivas páginas. Assim, em Tristessa a "lineariade" e “multissequencialidade” são opções que não excluem o leitor. Todavia, a leitura “linear” pode ser subvertida se o leitor escolher, numa página, seguir um link interno ou externo que esteja disposto no corpo textual. De qualquer forma, Tristessa oferece um caminho linear que pode ser percorrido por uma ordem pré-definida. Algo que responde a uma necessidade de cartografia dos textos. Uma espécie de carta de navegação que o autor oferece e que serve de arquitectura da ficção. Isto permite que o leitor possa, livremente, executar e visualizar todas as combinações possíveis entre as que foram estabelecidas previamente pelo sistema de sobrecodificação.
«23 lexias: todas as 19 da seção "Vidas", uma da seção "Insight" e três da seção "Ensaio". Não se sabe se a interrupção dessa trilha é proposital ou se decorre de um problema técnico: na última página apresentada, o menu deixa de funcionar e o leitor tem de recorrer ao menu de seu browser para sair da página. Erro ou "recurso de estilo"?»[29]
Essa parede virtual em que esbarramos, que é um menu sem funcionamento na última página sem fim assinalável, tem o mesmo efeito de leitura que uma gralha pode causar num texto analógico, impresso em papel. Subitamente, surge a confusão, a indagação sobre a origem dessa suposta falha. Os erros de funcionamento do hipertexto, mais habituais do que possamos imaginar, nem sempre são claras ou perceptíveis.
Esta disfunção em Tristessa, do Menu que estagna a certa altura, é um enigma: será um erro do sistema, um problema da programação do hipertexto ou um efeito propositado e provocado pelo autor? Esta espécie de ruído comunicacional deixa o leitor inseguro.
Já referimos que a navegação na leitura de Tristessa permite que a estrutura fragmentada se unifique na possibilidade de seguir a direcção de leitura proposta por Thomas Marasco. Mas esta prosa hipertextual é uma literatura ergódica[30]. Uma ciberliteratura que permite ao leitor a construção da estrutura da sua leitura que se torna “o seu texto”.

c) As Personagens e a História de Tristessa
Não é distinta e clara a existência real ou não destas pessoas que se envolvem na trama hiperficcional de Tristessa. Fernanda, Paula, Marcela, Alex, Thomas ou Roberta povoam a narração virtual e algumas lexias reenviam o leitor para páginas de apresentação das personagens como se de pessoas reais se tratassem. A descrição criteriosa de cada uma delas deixa uma margem grande de dúvida. Como o lexia Fernanda. Quando descreve a sua profissão actual, Fernanda escreve «Fotógrafa e personagem de ficção interativa de um livro chamado Tristessa, em andamento na Web.»

O mesmo encontramos com Marcela. Quando clicamos no nome somos redireccionados para a página http://www.quattro.com/tristessa/paginas/marcela/ e encontramos o testemunho da personagem/pessoa. «Estou me apresentando aqui nesta home page, mas minha vida não tem nada de digital, muito pelo contrário- sou completamente analógica.
Meu namorado
Thomas está escrevendo um livro na Internet e prometeu que eu faria parte dele, desde que me apresentasse na rede. Me deu algumas lições, um endereço, e aqui estou, me decompondo em bits.
Uma mistura de anjo e demônio, habitante de um site analógico, que conseguiu fazer com que ele regredisse à minha idade - 17 anos - quando já tinha quase o dobro. (…) Estou muito preocupada com a história de Thomas na rede, porque sei que aquela é a sua própria vida, as personagens são as pessoas que convivem com ele e o final tem algo muito estranho, que não me agrada.
Existe um vazio e uma ausência de vida na cena final da praia que eu não entendo e também não gosto. Existe um cheiro de morte que me preocupa.»

O mesmo sucede com a personagem Joana, a mulher de Thomas, Roberta e Alex, o seu ex-marido. Todos eles apresentam os seus emails, tornando possível o contacto com o leitor. Num estilo de “texto em camadas”, Thomas Marasco escreve um livro que, supostamente, é a vida do autor. A sua vida. Referindo-se, quem escreve, a Thomas na segunda pessoa, como se de outra personalidade se tratasse, escreve: «Em um determinado ponto de sua aventura artística, abandonou a experimentação pura e simples das vanguardas para conciliar a experimentação e a popularidade.
Aproveitando a metamorfose selvagem do mundo analógico para digital, desenvolveu o projeto de um centro de educação para criação de uma nova linguagem, pensando em ser útil para a humanidade.
Mas no fundo o que o preocupava mesmo era reescrever o seu antigo livro em linguagem de hipertexto e colocá-lo na rede, em todas as línguas, para que o planeta conhecesse a sua história.
Um dia nos encontramos na pousada de Paula, em Maresias, e ele me confiou um CD-R com os textos para que eu pudesse contar esta história.
"Tudo que está aí é verdadeiro, Passenger. O que ainda não é, vai ser."
"Se já está tudo aí nesse CD-R, porque você não imprime as cópias e distribui o livro?"
"Eu não acredito nessa mídia.»

Uma justificação que se consolida na continuação da leitura de Tristessa. Aos poucos, apercebemo-nos que Solidão dos Sobreviventes, é o livro que Thomas Marasco havia escrito no formato de papel e que reformulou para um formato electrónico. Ganhou um novo nome,- Tristessa. Mas antes do início da narrativa, numa espécie de pós-prefácio, é deixado o aviso: «Nós não vamos colocar o logo de Men at Work, mas tenha paciência com o Passenger, caro leitor. Ele está escrevendo este livro ao vivo e colocando na rede sem revisores e nenhuma estrutura editorial por trás. Ele é meio paranóico e não quer confiar o livro a revisores antes de colocá-lo no ar. Eventuais erros devem ser perdoados nessa fase inicial, e sugestões de correções podem ser enviadas via e-mail ao passenger@quattro.com.br, subject Tristessa.»
A organização temporal é complicada. O narrador da história designado por Passenger está em 2004 mas os factos ocorrem em Dezembro de 1999 e a troca de emails entre personagens data de 1996 sobre o presente. «Quando semanas depois abri o CD-ROM vi que se tratava de uma história dele mesmo, de seus amores e de seus amigos mais próximos, os quais eu havia acabado de conhecer naquele verão em Maresias. Alex, Roberta, Marcela, estavam todos lá, menos Joana (…) eu achei que tudo aquilo reforçado pela poderosa conectividade planetária da Web poderiam dar uma boa história.» [31] Mistura-se passado, presente, ficção e realidade, num hipertexto interactivo que concede uma espécie de mistério narrativo sem desenlace.


A realidade da Hiperficção

«No Princípio Era o Verbo...»
João 1:1-3.
«As novas tecnologias dos media estão a mudar algo que todos tínhamos por garantido: como lemos e escrevemos.»[32]
José Augusto Mourão

Thomas Marasco parece desprezar o formato papel. Não aspira a ser um escritor convencional ou ter a sua obra publicada e estendida nos escaparates das livrarias. Assume-se como autor da nova geração, decidido a explorar as potencialidades da literatura virtual, experimentando a textualidade cibernáutica. De facto, por um lado, a digitalização da escrita permite a fixação durável da obra mas uma produção textual mais efémera. Uma forma de incongruência que é hoje tema central quando se fala em hipertexto. «O arquivo é imenso, infinito e perene, a produção de texto é imediata, não-linear e efémera. Mas nesta double bind uma característica ressalta: escrever é publicar. Deparamo-nos com a possibilidade de extinção do inédito, que reforça a instituição autoral.»[33]
No mundo virtual, onde o digital predomina, todo o texto que se torna post é um texto publicado. Um texto automaticamente publicável e publicado, tornado público, acessível, generalizado, semente de discórdia e de crise na escrita que é, agora, contingente. E a própria forma de leitura se altera.
Ler perante um écran retira a lentidão e a concentração que a leitura do livro impresso impõe. «É claro que ler num écrã não é o mesmo que ler um livro; as pragmáticas da leitura (para usar uma expressão de Nicholas Burbules), isto é, a velocidade da leitura, o momento das pausas, a duração da concentração, a frequência com que saltamos texto ou voltamos atrás para reler, etc. – vão ser diferentes, e essas diferenças vão ter efeitos no modo como compreendemos e recordamos o que lemos.»[34]
Quando falamos de hiperficção estamos perante uma manifesta escrita topológica. Uma produção literária que ocorre no espaço além do tempo. É um texto que se movimenta, que habita numa profundidade de campo que reúne diferentes linguagens e técnicas de informação. A hiperficção acontece. Existe e acontece.
O autor, sem justificar as suas razões, pode realizar alterações na obra. Uma obra aberta, sempre aberta, que permite a constante alteração a quem ela pode ter acesso, algo determinado pelo programador ou produtor do hipertexto. Esta abertura da obra não reside o seu conteúdo mas na forma que, consequentemente, altera o conteúdo para quem lê, para quem fez as opções de leitura.
A passagem do papel para o monitor, da letra impressa para a letra virtual, impõe uma reflexão sobre este novo cenário semiótico produzido pela também máquina semiótica que é o computador. Produz uma nova forma de informação e altera o circuito comunicacional da literatura, na forma de a criar e de a veicular.
Mas nesta exercitação virtual, neste aplicação técnica entre bits e bytes, entre grafismo, macromediflash e sedutoras páginas perde-se, por vezes, a narrativa, a qualidade literária. José Augusto Mourão explica que «Aquilo que a escrita electrónica «conta» não é senão a linguagem das bifurcações, das descontinuidades e das descontextualizações: organizar a estabilidade das relações mais do que a invenção das palavras, ir até à raiz das diferenças imateriais que fundam a linguagem. Que linguagem – a do vazio?»[35]
Após o entusiasmo da novidade, o hipertexto deixou um sabor estranho. Afinal, criar poderia ser desafiante mas ler tinha um grande potencial para criar obstáculos. A ordem de leitura facilita a interpretação. É cómodo para o leitor. Até que ponto os leitores habituais, o sedentos de grandes narrativas estão aptos a deixar o livro de lado e adoptar a leitura de um monitor? Até que ponto quererão tomar papel interventivo na obra? «Pode ser que os leitores realmente prefiram a direção ordenada, centrada no autor, da narrativa tradicional, e assim estruturas mais complexas continuarão sendo exceções à regra.
O hipertexto também eliminou a sensação de finitude do textos, que causa um alívio catártico no leitor.»
[36] Pode tornar-se cansativo e criar desorientação a construção narrativa em círculos, em caminhos longos e tortuosos que nunca levam a um fim definitivo. Nesta fabricação de uma realidade que «não existe enquanto tal no mundo, mas que é sobretudo da ordem da ficção» [37] coloca-se em causa a teoria aristotélica de "início" e "fim" bem como o que é "sequência" e "unidade". Mais do que uma nova forma de literatura, a hiperficção é o novo habitat da obra, da produção. Nela, ganha corpo a dimensão imaginária do tempo e a forma aberta de criação. Nela, produzem-se questões ainda por responder.



[1] LÉVY, Pierre, As tecnologias da inteligência- o futuro do pensamento na era da informática, São Paulo, Editora 34, 1993
[2] MOURÃO, José Augusto, Alquimia Online, Discursos e Práticas Alquímicas, Colóquio Internacional II, Lisboa 2000, in http://www.triplov.com/alquimias/jam1.htm
[3] MOURÃO, José Augusto, Para uma poética do Hipertexto - Ficção interactiva, in http://www.triplov.com/hipert/
[4] MOURÃO, José Augusto, Para uma poética do Hipertexto – Ficção interactiva, Cadernos do ISTA, 15, in http://www.triplov.com/hipert/
[5] MOURÃO, José Augusto, A Criação Assistida por Computador- a Ciberliteratura, Colóquio Internacional A Criação, Lisboa 2001, in http://www.triplov.com/creatio/mourao.htm
[6] PORTELA, Manuel, Hipertexto como Metalivro, in
http://www.uc.pt/pessoal/mportela/arslonga/MPENSAIOS/hipertexto_como_metalivro.htm, 2003
[7] MOURÃO, José Augusto, A Criação Assistida por Computador- a Ciberliteratura, Colóquio Internacional A Criação, in http://www.triplov.com/creatio/mourao.htm
[8] in http://www.citi.pt/ciberforma/antonio_baptista/cap7.html
[9] SNYDER, Ilana, Hypertext. The electronic labirinth. Washington, New York: University Press, 1997
[10] BABO, Maria Augusta, As Transformações provocadas pelas tecnologias digitais na instituição literária, in http://www.bocc.ubi.pt/pag/babo-maria-augusta-tecnologias-literatura.pdf
[11] PEREIRA DIAS, Maria Helena, Encruzilhadas de um Labirinto Eletrônico- uma experiência hipertextual, in http://www.unicamp.br/~hans/mh/arquitet.html
[12] CORDEIRO, Andreia, O que é um hipertexto electrónico e de que forma altera a organização e a utilização dos textos? In http://www.uc.pt/diglit/DigLit%20Ensaios/Ensaios%202003-2004/Ensaio07.htm
[13] PORTELA, Manuel, Hipertexto como Metalivro, in
http://www.uc.pt/pessoal/mportela/arslonga/MPENSAIOS/hipertexto_como_metalivro.htm, 2003
[14] LÉVY, Pierre, As tecnologias da inteligência- o futuro do pensamento na era da informática, São Paulo, Editora 34, 1993
[15] MOURÃO, José Augusto, Para uma poética do Hipertexto – Ficção interactiva, 11- A condição textual?, Cadernos do ISTA, 15, in http://www.triplov.com/hipert/condition.htm
[16] DE MORAES, Dênis, Ciberespaço e mutações comunicacionais, 1- o furacão multimídia, in
[17] VIGGIANO, Eleonora, Literatura em Bits – A Arte Literária em meio virtual,
18] PALÁCIOS, Marcos, in http://www.correiodabahia.com.br/2001/09/18/noticia.asp?link=not000034596.xml[19] REZENDE, Luiziana, Desenvolvimento de Habilidades cognitivas e metacognitivas de leitura em softwares e webs educativos, 1- Introdução, in http://www.c5.cl/tise98/html/trabajos/desenv/index.htm
[20] JOYCE, Michael, Sustituyendo al autor: un libro en ruinas’". In: NUNBERG, Geoffrey (comp.). El futuro del libro. Barcelona: Paidós, 1998, p. 280
[21] LÉVY, Pierre, As tecnologias da inteligência- o futuro do pensamento na era da informática, São Paulo, Editora 34, 1993
[22] REZENDE, Luiziana, Desenvolvimento de Habilidades cognitivas e metacognitivas de leitura em softwares e webs educativos, 2- Princípios Fundamentais da Leitura, in http://www.c5.cl/tise98/html/trabajos/desenv/index.htm
[23] idem, ibidem
[24] CHARTIER, Roger. “Readers and Reading in the Age of Electronic Texts”, p. 2
[25] BABO, Maria Augusta, Hipertexto e Narratividade, in http://www.eco.ufrj.br/epos/artigos/art_mbabo.htm
[26] BARBOSA, Pedro, (1998). A Renovação do experimentalismo literário na Literatura Gerada por Computador. in: Revista da UFP, Nº2, Vol. I, p. 181-188
[27] in http://www.quattro.com.br/tristessa/paginas/thomas/
[28] in http://www.quattro.com.br/passage/entrevis.htm
[29] CORTEZ MINCHILLO, Carlos A., Literatura em Rede: Tradição e ruptura no Ciberespaço, in http://www.unicamp.br/iel/memoria/
[30] Ergodic Literature é uma expressão utilizada pelo teórico norueguês Espen J. Aarseth e que define a literatura e o livro produzidos na rede e composto por links, infografia, holografia, narrativa circular, etc.
[31] in http://www.quattro.com.br/tristessa/paginas/passenger/
[32] in "A criação assistida por computador: a ciberliteratura", Atalaia nº 8/91(2001), http://www.triplov.com/creatio/mourao.htm
[33] BABO, Maria Augusta, Hipertexto e Narratividade, in http://www.eco.ufrj.br/epos/artigos/art_mbabo.htm
[34] FURTADO, José Afonso, Livro e e Leitura no novo ambiente digital, Enciclopédia e Hipertexto, in http://www.educ.fc.ul.pt/hyper/resources/afurtado
[35] MOURÃO, José Augusto – Funambulismos: A narrativa e as formas de vida tecnológicas, in Revista de Comunicação e Linguagens, Número Extra, Junho de 2002, p. 385.
[36] VIGGIANO, Eleonora, Literatura em Bits – A Arte Literária em meio virtual, http://www.letras.ufrj.br/ciencialit/encontro/Eleonora%20texto%20completo.doc
[37] MOURÃO, José Augusto, Para uma poética do Hipertexto – Ficção interactiva, 11- A condição textual?, Cadernos do ISTA, 15, in http://www.triplov.com/hipert/condition.htm
Bibliografia
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Idem, Hipertexto e Narratividade, in http://www.eco.ufrj.br/epos/artigos/art_mbabo.htm

BARBOSA, Pedro, (1998). A Renovação do experimentalismo literário na Literatura Gerada por Computador, in Revista da UFP, Nº2, Vol. I

CHARTIER, Roger, Readers and Reading in the Age of Electronic Texts, 2001. E-book facultado por www.text-e.org

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idem, A Criação Assistida por Computador- a Ciberliteratura, Colóquio Internacional A Criação, in http://www.triplov.com/creatio/mourao.htm

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http://www.letras.ufrj.br/ciencialit/encontro/Eleonora%20texto%20completo.doc


Índice

Hiperficção: de onde vem e o que é?
a) O Computador, berço do Hipertexto Moderno
b) A Internet e os primeiros passos da Hiperficção
c) Leitor-Autor ou Autor-Leitor?

Tristessa: a estreia em português
a) Quem Escreve em Tristesse
b) O corpo de Tristessa
c) As Personagens e a História de Tristessa

A realidade da Hiperficção

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